Arranca o esparadrapo de uma vez ou vai com calma?

Como é a saúde em Portugal

Foi no meu sabático de 2013 que conheci o Dan Ariely e seu curso Irrationaly Yours que depois virou livro e filme. A carreira desse professor de psicologia comportamental da Universidade de Duke teve um início inesperado, a partir de um acidente que deixou 70% do seu corpo queimado.

Trocar as bandagens era o pior pesadelo. As enfermeiras preferiam o método do puxão rápido, na crença que seria melhor uma breve dor aguda do que a retirada lenta com dor moderada, porém prolongada.

O Dan detestava o método a tal ponto que quando saiu do hospital se lançou a estudar o assunto. Usando técnicas de pesquisa científica de comportamento comprovou que era melhor a abordagem leve e prolongada.

Não só isso, é preferível começar pelas áreas mais difíceis e terminar pela mais fáceis. Cada etapa vencida é um alívio, elevando o espírito por saber que só pode melhorar. A experiência fica ainda melhor se houver pausas para recuperação. Idealmente deve-se terminar com algum procedimento indolor ou de alguma forma agradável.  

Se as enfermeiras confiassem na intuição da minha mãe, o Dan nunca se tornaria um dos cientistas mais ativos na área de psicologia comportamental. Ela fazia questão de tirar os band-aids e esparadrapos leeeeentamente. Intuição de mãe nunca falha.

Diferentemente do Dan, estamos gostando da experiência com a saúde em Portugal. É completamente o oposto ao que vemos no Brasil, onde o lobby das empresas de saúde, sindicatos e políticos armaram uma arapuca, uma bomba relógio no colo das famílias.

Se você não reparou, fique sabendo que hoje no Brasil quase não há oferta de planos individuais de boa qualidade a custos razoáveis, restando apenas a opção de aderir a um plano coletivo, geralmente associado a um sindicato.

Não é por acaso. O nosso cenário político é um campo minado de todo tipo de interesse, menos do cidadão sem representação. O sindicato tem o incentivo de receber uma gorda comissão por plano vendido, as empresas fogem dos riscos dos planos individuais e os políticos querem tudo menos pensar nos outros.

O segurado fica encurralado entre um bom plano coletivo e um individual meia-boca ou tão caro que precisa ser milionário para conseguir pagar. Ao longo dos anos percebe que os reajustes desses planos de grupo são muito acima da inflação. O cenário mais provável é que não seja possível pagar quando a velhice chegar.

Para as seguradoras os planos em grupo são o nirvana. Não precisam se preocupar com os custos hospitalares por conta do poder de repasse, enquanto que nos individuais tem que seguir as regras da ANS que restringem o reajuste.

Os custos da saúde são também um problema de países de primeiro mundo. Nos EUA o sistema está totalmente fora de controle. Cerca de 650.000 americanos declaram falência todo ano por dívidas de saúde. Para se ter uma ideia, Amazon, Berkshire Hathaway e JP Morgan se juntaram a fim de buscar soluções de redução de custo dos serviços de saúde de seus empregados.

Um grande amigo travou uma dura batalha contra o câncer no Brasil e resolveu fazer um acompanhamento nos EUA. Era só uma precaução para confirmar se estava tudo bem. Poucas semanas de exames e consultas resultaram em um conta de US$ 275.000!

As diferenças de Portugal são estarrecedoras, como diria uma certa senhora presidenta. Ninguém pede falência por dívidas de saúde. O serviço público tem qualidade comparável aos particulares brasileiros. Os problemas de alta complexidade são automaticamente enviados para os melhores hospitais, que são públicos.

Considerando o tamanho das cidades e da população, a oferta de hospitais públicos e privados poderia ser até considerada exagerada. Na região do Porto, por exemplo, existem três grandes hospitais privados de qualidade e pelo menos mais três grandes hospitais públicos de renome para uma população de 300 mil pessoas.

A derrapada do sistema acontece em consultas e exames de rotina. Em determinadas regiões (especialmente no interior e nas regiões mais adensadas) pode demorar um tempão, por isso faz sentido pagar um plano de saúde em Portugal.

Cada seguradora oferece um custo e cobertura diferente, muito embora possam usar a mesma rede de atendimento. Pago €130 mensais para cobertura de três pessoas, economizando 75% em relação ao Brasil, porém existem algumas diferenças importantes.

A utilização nunca é gratuita, seja na rede própria ou na pública. Uma consulta custa €15, um exame de sangue completo €15, um diagnóstico com imagem fica por uns €20 e um exame complexo com anestesia chega a €100. O reembolso fora da rede é de 50%.

O que se economiza na mensalidade é mais do que suficiente para cobrir os custos de coparticipação.

E nada como ter os incentivos corretos. A coparticipação desincentiva o abuso na utilização que tanto acontece no Brasil, depois repassado à mensalidade. É preferível fazer um check-up anual que custa entre €50 a €80 do que ficar fazendo exame a torto e a direita.

O próprio segurando pensa três vezes antes de marcar uma consulta porque dói um pouquinho no bolso. O sistema não fica sobrecarregado, o que possibilita preços justos para os planos médicos, mesmo  com cobertura de odontologia e remédios.

O plano pagará qualquer despesa médica até o valor anual máximo contratado escolhido, que pode ser desde €2.500 até dezenas de milhares de euros. Não há porque fazer planos ilimitados. Os custos hospitalares não são assim tão altos e os casos complexos e caros irão parar no serviço público.

Coparticipação e serviços públicos de qualidade permitem ter planos de saúde acessíveis, sendo uma solução inteligente para qualquer brasileiro que esteja preocupado com a escalada de custos dos planos de saúde.

Abraço.

Marcio Fenelon

 

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Escrito por
Marcio Fenelon Formado em Administração de Empresas pela EAESP -FGV, tem duas pós-graduações pelo Insper e Fipecafi-USP. Possui 25 anos de experiência na área financeira de grandes empresas brasileiras, sendo os últimos 10 anos dedicados à análise e captação de recursos para investimentos imobiliários. Autor de dois livros, vários cursos e incontáveis relatórios com recomendações de investimento.
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