Aula de automobilismo medieval e o Tripadvisor salvam o dia

A reputação do Porto continua intacta

Com um fim de semana livre entre os compromissos profissionais na Europa, meu amigo Felipe resolveu pegar um "caríssimo" voo de €18 vindo de Lisboa para visitar o Porto.

Não sei como as companhias aéreas ganham dinheiro com esses preços (é verdade que algumas tem uma vida tão curta quanto moscas de banana), mas os voos low cost mudaram a cara do turismo e, principalmente, tornaram essa visita possível.

Confesso que sinto a pressão. Quero aprovação dos visitantes. Espero por aquele momento "uau" para me deixar contente com a decisão de viver no Porto.

É uma verdadeira bobeira. Não vai mudar nada. Ninguém desiste de uma cidade ou país por conta de uma visita fracassada, mas lá no fundo todos que trocaram de cidade ou país anseiam pela aprovação.

Como se não bastasse a pressão de agradar, sei que estou longe de ser uma autoridade sobre a cidade. O ponto de vista de um morador é totalmente diferente de um turista.

Sem pressa, demoramos para conhecer a cidade profundamente, ao mesmo tempo que começamos a valorizar muito mais o que é incomum no dia a dia, em total contraste ao turista que quer mesmo experimentar o tradicional.

É um saco ficar provando francesinha toda vez que saio para comer fora e, portanto, não saberia dizer qual é a melhor da cidade (dizem que é do Afonso), mas conheço ótimos locais para um hamburger, brunch americano, massa italiana, bao de Taiwan e ramen japonês.

Sem ser um expert no turismo e com a pressão de agradar, ainda por cima quero ser "diferentão", tentando inventar passeios que superem o clichê da cidade.

Qual é a graça de ter um amigo que te leve nos locais mais batidos?

E com o maior orgulho que descobri um local que 99,9% dos turistas passam longe. Meu local secreto tem uma vista sensacional do Douro e está colado em uma igreja que foi construída antes do descobrimento do Brasil – os inimigos vão dizer que estou exagerando, mas fica valendo para efeito dramático.

O problema é que um local histórico geralmente tem um acesso também histórico, o que na Europa é uma rua muito, mas muito, estreita. Digamos que hoje consigo entender quem escolhe um Smart para andar por aqui.

Indo pela primeira vez de carro, acabei errando a entrada. Pior ainda, persisti no erro. Fiz uma curva que deixaria Airton Senna abismado, para logo a seguir constatar que a rua ficava ainda mais apertada.

Percebendo a mancada, dei meia volta. A curva difícil na ida, tinha se transformado em um quebra-cabeça impossível na volta. O Felipe até saiu do carro para ajudar, mas não tinha como acertar o ângulo.

Quando estava resignado com a hipótese de só sair dali com uma grua ou raspando o carro naquelas pedras centenárias, aparece um senhor, um verdadeiro herói da paciência, para salvar o dia.

Morando na curvinha impossível, imagino que ele tenha presenciado aquela cena mais vezes que gostaria. Foi uma aula de manobras automobilísticas medievais. O segredo era avançar em um nicho na parede que nem percebemos que existia.

Estávamos livres em cerca de 2 minutos. Esquecendo a humilhação, agradeci efusivamente ao senhor pela gentileza (só não abracei para não tornar a situação ainda mais esquisita) e rumamos para o infame miradouro.

Ironicamente, depois de tanto esforço, o local não cumpriu seu destino e o momento "uau", virou um momento "meh".

Viu só a igreja? É bem velhinha, olha que legal. E a vista, sensacional, não?

Nada...

Sou brasileiro e não desisto nunca.

Graças ao bom Deus que tinha feito uma pesquisa no Tripadvisor. Às favas com a originalidade, apelei para a vinícola com a melhor avaliação do Porto.

Em minutos estávamos vendo as mais lindas vistas da cidade acompanhadas de um bom vinho do Porto. O Felipe até ligou para a esposa no Whatsapp para mostrar a paisagem.

Vitória! Tinha conseguido o meu momento "uau".

Naquele dia fui dormir tranquilo com a missão cumprida e a certeza de uma escolha bem-feita.

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Escrito por
Marcio Fenelon Formado em Administração de Empresas pela EAESP -FGV, tem duas pós-graduações pelo Insper e Fipecafi-USP. Possui 25 anos de experiência na área financeira de grandes empresas brasileiras, sendo os últimos 10 anos dedicados à análise e captação de recursos para investimentos imobiliários. Autor de dois livros, vários cursos e incontáveis relatórios com recomendações de investimento.
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