Choque cultural e xenofobia em Portugal

Regras são regras

Era um dia importante, ela estava mais nervosa que o normal. Se atrapalhou toda para se arrumar para a entrevista de emprego em Portugal. Atrasada, a brasileira validou rapidamente seu bilhete no metrô e rumou para a plataforma.

Olhou no relógio. Com a correria tinha conseguido recuperar o tempo perdido. Já mais relaxada, não imaginava que aquele fiscal fazendo uma checagem completa no vagão representaria um pesadelo que nunca mais esqueceria.

O metro do Porto não tem catracas. A obrigação do viajante é validar um cartão eletrônico, que deve ser mostrado a fiscais sempre que requisitado. Ela estava tranquila, afinal de contas nunca viajava sem validação.

O desespero foi crescendo à medida que revirava a bolsa e não achava a carteira. Desnorteada explicou que a carteira deve ter caído justamente no momento da validação. Pediu a compreensão do fiscal. Uma força. Era um dia importante de entrevista.

Ela jurou que viu um sorrisinho no canto de boca enquanto o fiscal explicava que nada poderia fazer. Regras são regras. Ela deveria ser conduzida para receber uma multa e a marcação de uma audiência.

Inconformada com tamanha frieza, continuou tentando uma saída. Um jeitinho, afinal de contas deveria haver uma exceção para casos de perda como o dela.

Não houve acordo. Na sala de espera teve a companhia de uma outra pessoa que ela identificou pelo sotaque como um português. Com os dois sozinhos, não havia nenhum impedimento de sair correndo. A porta estava aberta e ninguém controlava, porém uma fuga não condizia com o seu caráter.

Depois de angustiantes minutos de espera, apareceu uma senhora que parecia ser a chefe para pedir documentos de identidade. A brasileira explicou que tinha perdido a carteira e não tinha documentos. Pediu para ser liberada para seu importante compromisso.

A senhora explicou que não seria possível. Ela jurou que viu novamente um sorrisinho, porém dessa vez acompanhado de um certo desprezo.

A brasileira pirou quando o português entregou o documento de identificação e acabou sendo liberado em 10 minutos. Fez um escarcéu. Reclamou que era discriminação. Ameaçou e implorou.

A senhora, já sem paciência, explicou novamente que não tinha acordo, a polícia estava vindo. A discussão aumentou de volume. Aos gritos a senhora sugeriu que se a brasileira não estivesse satisfeita que voltasse para o seu país.

Depois de muito tempo de espera a polícia chegou, anotou a ocorrência de perda dos documentos, a brasileira recebeu a multa e a marcação de audiência e finalmente foi liberada.  

No final das contas descobriu que chamar a polícia é um procedimento padrão quando se perde os documentos. Não havia  discriminação em liberar o português primeiro.

A história é real e foi destaque em alguns fóruns de imigrantes brasileiros em Portugal. A brasileira ainda estava muito indignada por todo o tratamento, especialmente porque a funcionária mandou ela voltar para a sua terra. Uma indesculpável manifestação de xenofobia.

Esse é um caso clássico de choque cultural. Estamos muito mal acostumados com o jeitinho brasileiro. Uma súplica bem feita geralmente dá bom resultado. Somos emotivos e aproveitamos o argumento que ninguém irá saber para quebrar regras.

O português não quer saber. As regras são feitas para serem seguidas.

No aeroporto de Lisboa, eu presenciei um brasileiro aos berros perguntando ao português porque raios não poderia cortar caminho e entrar direto no táxi sem pegar a fila, já que não havia ninguém esperando.

Até a Madonna encarou essa face rigorosa dos portugueses. Foi educadamente recebida pelos ministros que gentilmente explicaram que a regras de imigração precisavam ser seguidas. Não haveria como furar filas ou conceder isenções de nenhum tipo.

Quando me deparo com algum funcionário público que parece ter uma interpretação diferente da minha, eu argumento uma única vez. Se a resposta é negativa, volto para casa, revejo as leis, consulto especialistas e volto outro dia para tentar com outro funcionário.

E muito sinceramente o brasileiro deveria agradecer. Não esqueçamos que o jeitinho brasileiro é um dos fatores que contribuem para a bagunça que o país está. Insegurança jurídica e pessoal. Só com essa rigidez é que Portugal pode proporcionar o nível de segurança conquistado.

Abraço.

Marcio Fenelon

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Escrito por
Marcio Fenelon Formado em Administração de Empresas pela EAESP -FGV, tem duas pós-graduações pelo Insper e Fipecafi-USP. Possui 25 anos de experiência na área financeira de grandes empresas brasileiras, sendo os últimos 10 anos dedicados à análise e captação de recursos para investimentos imobiliários. Autor de dois livros, vários cursos e incontáveis relatórios com recomendações de investimento.
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