Imóveis e a paixão portuguesa por carros

Meus sonhos se dissolveram com a dura realidade

A mudança para um novo país é cheia de expectativas e muita idealização. A chegada é um choque com a nossa própria ingenuidade e romantismo. Muitas das premissas vão para a lata do lixo em poucos meses.

No meu delírio idealizado, todo mundo na Europa usava transporte público. Independente de ser Paris, Londres, Lisboa ou Porto, é óbvio que todo mundo prefere pegar um metrô, certo? Se até o Primeiro Ministro da Dinamarca anda de bicicleta, é claro que todo mundo funciona assim.

Errado! Depende muito da cultura do país e da região, da qualidade do transporte e até dos custos. Portugal é o segundo país que menos usa o transporte público na Europa.  

O português adora um carro. Tem localidades em que o custo do carro é menor do que um passe mensal. O diesel, apesar de caro, é super econômico. Além disso, dá para sair da concessionária com um carro zerinho pagando 100 euros por mês. Até um casal ganhando salário mínimo consegue encarar essa prestação.

Andar de carrão é ainda símbolo de “estatuto” (status aí no Brasil). Como as placas indicam o ano de fabricação, tem gente que faz questão de ter carros novinhos sempre. E esquece consciência ambiental. A esmagadora maioria dos carros é movido a diesel e ainda por cima com câmbio manual para economizar.

E assim um dos meus sonhos românticos de vida urbana ultra civilizada européia se dissolveram na realidade automobilística portuguesa.

Esse fato tem repercussões importantes sobre o imobiliário. Saindo do centro histórico, só os imóveis mais baratos e simples estão colados às estações de metrô ou trem.

Para imóveis da classe média é mais importante ter estacionamento e bons acessos às estradas do que estar perto do metrô. Produtos mais sofisticados ficam nos bairros com tradição e reputação.

As exceções são os imóveis destinados para turistas e estudantes que dependem do acesso ao transporte público para se locomover.

Pontos de congestionamento desvalorizam muito os imóveis. A famosa linha de Sintra, por exemplo, é famosa pelo trânsito pesado e tendo muito menos atratividade que outras regiões da Grande Lisboa. A Almada em Lisboa e Vila Nova de Gaia no Porto são dois exemplos que sofrem pelas poucas opções de acesso através de pontes que sempre estão com trânsito pesado.

O fator deslocamento por carro é, portanto, muito decisivo quando da avaliação de um imóvel nas grandes cidades portuguesas. Quando menos trânsito e tempo para acessar o centro, mais líquido e valorizado será o imóvel.

Abraço.

Marcio Fenelon

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Escrito por
Marcio Fenelon Formado em Administração de Empresas pela EAESP -FGV, tem duas pós-graduações pelo Insper e Fipecafi-USP. Possui 25 anos de experiência na área financeira de grandes empresas brasileiras, sendo os últimos 10 anos dedicados à análise e captação de recursos para investimentos imobiliários. Autor de dois livros, vários cursos e incontáveis relatórios com recomendações de investimento.
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