Os políticos querem estragar tudo II

O mundo está de cabeça para baixo. Literalmente.

Encaro o desenvolvimento da sociedade como algo natural, reflexo das descobertas científicas, da mudança dos costumes e pressão dos mais diversos interesses sociais.

Quando era mais novo tinha verdadeiro horror ao discurso conservador que “tudo estava perdido” e que “o mundo já não era mais o mesmo”.

Ainda hoje acho que esse discurso diz muito sobre fala e pouco sobre a realidade social. Demonstra uma falta de capacidade de adaptação e recusa em aceitar mudanças, tornando a experiência muito mais dolorosa para todos os envolvidos.

Confesso que ultimamente tenho sentido na pele a sensação dos parentes idosos. Possivelmente esteja me tornando um deles. Se não mudar, talvez alguns anos me vejo sentado no sofá de casa reclamando da qualidade dos artistas que aparecem no Faustão.

Por enquanto eu não consigo entender certas posições de políticos e o estado geral da economia mundial. Hoje em dia o dinheiro é como batata quente que queima quando dorme no colo da instituição financeira.

Não sei se você sabe, mas o Banco Central Europeu tem penalizado os bancos por não emprestar recursos disponíveis, aplicando juros negativos nas aplicações.

Quem não consegue (ou não quer) emprestar é obrigado a pagar para deixar o dinheiro aplicado ao final do dia, fazendo com que a famosa Euribor, taxa média de juros praticada nos empréstimos interbancários fique em território negativo (-0,377% e -0,191% ao ano dependendo do prazo de vencimento).

É uma forma pouco usual para estimular a economia. Os bancos são obrigados a emprestar o máximo possível. Os empréstimos estimulam o consumo que estimula o crescimento econômico. Simples assim.

O problema que se apresenta é que a Euribor é amplamente utilizada pelos bancos para corrigir os financiamentos imobiliários. As taxas negativas podem levar a situações incômodas em que o mutuário recebe em vez de pagar, quando o spread de juros seja menor que a Euribor.

Em um exemplo absurdo que o financiamento imobiliário tenha juros 0,2%, com a Euribor de -0,3777%, os juros resultantes seriam de -0,1777% ao ano. O mutuário passaria a receber em vez de pagar!

Para evitar essas situações é que os bancos colocam cláusulas que não permitem que a Euribor aplicada aos financiamentos seja menor que zero. Nada mais justo, pois o consumidor final também tem esse limite nas aplicações. Nenhum investidor individual paga para aplicar em Portugal!

Os gênios da política portuguesa, especificamente do Bloco de Esquerda e P.S., acham que é justo que se aplique a Euribor negativa, criando situações efetivas em que o mutuário recebe para fazer um financiamento!

Não que eu tenha dó dos bancos, mas existe um risco real de que os financiamentos imobiliários travem em Portugal. Porque haveria de pagar para emprestar? Havendo outros mercados que não permitem a aplicação da Euribor negativa, os bancos não teriam dificuldade de direcionar seus recursos para esses países com legislação mais amigável.

Os efeitos de um travamento do mercado de crédito imobiliário seriam sentidos rapidamente em preços e liquidez de mercado. O crédito imobiliário é como ar que o mercado respira, sendo importante acompanhar a votação desta legislação na assembleia nos próximos meses.

Rejeitar essa proposta será mais uma prova que Portugal não tem vocação para o desastre.

Continuaremos de olho.

Abraço.

Marcio Fenelon

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Escrito por
Marcio Fenelon Formado em Administração de Empresas pela EAESP -FGV, tem duas pós-graduações pelo Insper e Fipecafi-USP. Possui 25 anos de experiência na área financeira de grandes empresas brasileiras, sendo os últimos 10 anos dedicados à análise e captação de recursos para investimentos imobiliários. Autor de dois livros, vários cursos e incontáveis relatórios com recomendações de investimento.
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